Alphaville / SP - sexta-feira, 28 de novembro de 2014

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 Fibromialgia: o que você precisa saber.  

O que é fibromialgia? Fibromialgia não chega a ser uma doença. Se você fizer uma biopsia das partem que doem, mandar para análise, fazer cultura, olhar no microscópio (...), nada vai surgir. O tecido não está doente. Não há nenhum vírus ou bactéria. E, a boa notícia, ninguém morre disso. No entanto, quem sofre de fibromialgia não a menor dúvida de que alguma coisa está errada. Que nome dar? Diz-se “síndrome”, “distúrbio”, “patologia”. Seja lá qual for o nome, existe, e causa imensa morbidades para os acometidos. Quem tem fibromialgia? Fibromialgia pode acometer homens e até crianças, mas isso é bastante raro. Mais de 95% das pessoas que sofrem deste mal são mulheres, geralmente com idade superior a 20 anos. Quais os sintomas de fibromialgia? Dor no corpo todo. Dor “na carne”, não nas juntas. Dói o dia inteiro, mas a dor é particularmente maior ao acordar (parece que se “levou uma surra” na noite anterior”), sente-se uma discreta melhora ao longo do dia, mas no final da tarde a dor vem de novo com toda sua intensidade. Dorme-se mal nesta síndrome. A cabeça “não para”. Todos os problemas da humanidade passam na cabeça da fibromiálgica, mas em especial os dos parentes próximos. O sono é descrito como “não reparador”, ou seja, a pessoa não descansa. Tem-se a sensação de cansaço e sonolência por todo o dia. Em muitas pessoas as mãos estão inchadas, principalmente pela manhã, algumas vezes formigam, ou ficam dormentes. Para outras, por momentos, a respiração pode ficar difícil, como se houvesse um grande peso sobre o peito. Essa sensação passa sozinha após minutos ou horas mas tende a voltar ao longo do dia. Dores de cabeça são comuns. Causa ou conseqüência, a depressão é muito frequentemente associada a fibromialgia. Como ter certeza de que eu tenho fibromialgia? Não há exame diagnóstico. É muito comum a pessoa passar de médico em médico, realizar milhões de exames, de sangue à ressonância magnética, sem encontrar nada de errado. O diagnóstico de fibromialgia é baseado em exames laboratoriais, que excluem outras doenças que possam imitar a fibromialgia, e no quadro clínico típico. Os famosos “pontos em gatilho” da fibromialgia (pontos bastante dolorosos à palpação) são indicativos com maior valor para trabalhos clínicos do que para o diagnóstico em indivíduos específicos. O que causa fibromialgia? Para ir direto ao ponto, o que causa a fibromialgia é o sono ruim. Quem não descansa por um período contínuo e duradouro fica com dores no corpo todo. É o que acontece na fibromialgia, e em outras patologias do sono. Em outra doença, a apnéia do sono, por exemplo, o indivíduo não dorme por uma razão bem diferente da fibromialgia: se ele aprofunda no sono engasga e sufoca. Mas o resultado é o mesmo: dores no corpo, dores de cabeça, cansaço e sonolência. Uma mãe que não consegue dormir há meses porque o bebê acorda a noite toda também sente dores semelhantes. Mas, na fibromialgia, o que causa o sono ruim? Como já mencionado, a fibromiálgica não dorme porque “a cabeça não desliga”. Porque então “a cabeça não desliga”? Aí entra o próximo tópico. A personalidade fibromiálgica Fibromiálgicas carregam o mundo nas costas. Preocupam-se contudo e com todos. Porque o filho vai mal na escola, porque a filha perdeu o emprego, porque o genro não dá bola para os problemas, porque o marido não se envolve... Trabalha e preocupa-se com e para todos. E frequentemente aflige-a o fato de que ninguém se preocupa com estes problemas como ela. Bem, se uma pessoa toma conta do mundo sozinha, como é que ela vai conseguir dormir? Quem vai tomar conta do mundo enquanto ela estiver “desligada”? Os problemas são enormes, e após um vem logo outro. E a fibromiálgica passa a vida esperando as coisas melhorarem para ela começar a se cuidar, para começar a ser feliz. Mas as coisas nunca melhoram o bastante. Fibromialgia tem cura? Tem. Mas depende muito mais da paciente do que do médico. Ao médico cabe apenas orientar e passar algumas medicações. As medicações na fibromialgia não são mágicas. Elas se baseiam em relaxantes musculares, que melhoram o sono e “desligam” um pouco a pessoa, e antidepressivos. Alguns antidepressivos também dão sono, outros apenas combatem a depressão associada, e diminuem a ansiedade. Muitas fibromiálgicas ficam viciadas em remédios para dormir e ansiolíticos, que resolvem muito parcialmente os problemas. Os relaxantes musculares e antidepressivos não causam dependência, mas, infelizmente, perdem a eficácia após mais ou menos de 8 a 12 meses. Então os problemas voltam, e os remédios não mais funcionam. É verdade que esportes têm papel fundamental na fibromialgia? Sim. Esporte age de diversas maneiras. Em primeiro lugar melhora a forma física, a auto-estima e o organismo como um todo. Em segundo, libera uma série de hormônios e mediadores que aliviam a dor e o cansaço. Em terceiro, pode melhorar a qualidade do sono. Por fim, o esporte é um momento onde a fibromiálgica deixa o mundo de lado para cuidar de si mesmo. Isso apenas já é grande avanço! Qual esporte fazer? Tenha em mente duas coisas: primeiro, a atividade deve ser para a vida toda! Portanto não faça algo que não goste, ou que não vai agüentar muito tempo. Se academia te entedia, mas dança te dá prazer, dance! Se cansar de um mude para outro. O importante é não ficar parada. Combine esforço aeróbico com alongamento. Musculação não é o mais indicado. Segundo, um corpo dolorido e contraído dói mais ao exercício. É comum e esperado que as dores piorem no início das atividades físicas. Este é o momento de usar as medicações que seu reumatologista indicar, elas darão algum alívio. Insista. Continue. Faça por gosto e por você. Como curar fibromialgia? Geralmente uma crise forte de dor anuncia que a pessoa está realmente num limite e que uma mudança no estilo de vida é urgente. Algo está “demais”, pesado demais mesmo para esta pessoa campeã em agüentar as coisas. Esta crise pode ser uma oportunidade de alavancar uma transformação, e a cura. Entenda esta crise de dor aguda como um grito do corpo pedindo que a pessoa atenda as exigências maiores de sua essência. 

Para curar a fibromialgia tem-se que tomar consciência dos mecanismos que causam a doença, e mudá-los. Os remédios são fundamentais, viabilizam uma condição onde a transformação tem chances de acontecer, dão alívio por alguns meses. Este tempo é valioso para a pessoa mudar completamente o jeito como leva a vida. “Se trago as mãos distantes do meu peito, é que há distância entre intenção e gesto”, diz Chico Buarque. Da mesma forma, conscientizar-se está ainda a alguma distancia de resolver o problema. Pode não ser fácil mudar os padrões de comportamento de uma vida toda. Por isso psicoterapia é fundamental. Simplesmente deixar de se preocupar com as coisas e pessoas não é possível. Se fosse, deixaria um vazio enorme. A fibromiálgica pode perceber que há anos não vive sua própria vida. Reconstruí-la, retomar objetivos próprios e prazeres pessoais é fundamental. Lidar com a culpa de “deixar as pessoas à própria sorte” também pode ser difícil. A combinação da medicação certa, exercícios físicos, auto-conhecimento e muita vontade é a única fórmula capaz operar milagres.

Lúpus Eritematoso Sistêmico

Introdução: Lúpus é ocasionalmente chamado de o “camaleão” das doenças. Isso porque pode acometer virtualmente qualquer órgão ou tecido e se apresentar das mais variadas formas. Muitas doenças podem ser confundidas com Lúpus, e vice-versa.  Reumatologistas freqüentemente recebem em seus consultórios ansiosos pacientes que foram erroneamente diagnosticados com Lúpus, que na verdade apresentam outra ou nenhuma doença.  Em poucas palavras          Afeta de 40 a 150 em cada 100.000 pessoas, 10 vezes mais mulheres que homens          Sintomas variam muito e muitos órgãos podem ser acometidos, principalmente a pele, as juntas, os rins, os pulmões e o sistema nervoso.          É uma doença autoimune (ver a baixo)          Requer acompanhamento por reumatologista          Tratamento depende dos sintomas e de sua intensidade          O tratamento tem grande impacto sobre a sobrevida e a qualidade de vida dos pacientes          Um grande número de novas drogas têm surgido, ascendendo esperanças para os casos mais difíceis. O que é LUPUS?Lupus Eritematoso Sistêmico, ou apenas Lupus, é uma doença inflamatória que pode afetar virtualmente qualquer órgão ou tecido do corpo, mais freqüentemente a pele, as articulações, os rins, pulmões e o sistema nervoso. O paciente típico apresenta inflamação em articulações pequenas, manchas nas áreas da pele que são expostas ao sol, febre, cansaço. Mas a doença pode apresentar-se de muitas e variadas formas, tornando o diagnóstico às vezes difícil.  Quais são os sintomas de Lúpus?Como exposto à cima, as apresentações podem ser muito variadas. A doença pode ser grave, mas muitas vezes é leve e com boa resposta à terapêutica. A seguir, sintomas não raros no lúpus: Sintomas gerais

  • Fadiga
  • Febre
  • Dor muscular
 Sintomas por acometimento da pele
  • Hiper-sensibilidade a luz (vermelhidão/ inflamação da pele nas partes expostas à luz, como rosto, colo. Responsável pela famosa lesão em “asa de borboleta”, nas maçãs do rosto e em volta dos olhos)
  • Outros tipos de lesões cutâneas (lúpus pérnio, livedo reticular, lúpus discóide, outros)
  • Perda de cabelo
 Sintomas por acometimento articular
  • Artrite (dor, calor, inchaço nas juntas)
  • Rigidez matinal (sensação de “ferrugem” nas juntas pela manhã ou após inatividade prolongada que melhoram com movimentação)
 Sintomas por acometimento de Pulmão ou pleura
  • Dor ao respirar
  • Derrame na pleura
  • Falta de ar
  • Sangramento pulmonar
  Sintomas por acometimento de vasos
  • Fenômeno de Raynaud (mãos pálidas, roxas ou vermelhas, ou a progressão destas cores, com o frio. É presente em grande parte das pessoas normais)
  • Tromboses
  • Dor abdominal
  • Alterações visuais
 Sintomas por acometimento dos rins
  • Alterações na no exame de urina (sangue, restos celulares, proteína)
  • Insuficiência renal
 Sintomas por acometimento nervoso
  • Dormência, formigamento, disistesia (sensação ruim ao tato)
  • “Derrames” (acidentes vasculares cerebrais)
  • Fraqueza muscular
  • Convulsão
  • Quadros psiquiátricos (psicose, depressão)
 Sintomas por acometimento do sangue
  • Linfócitos, plaquetas ou glóbulos vermelhos baixos
 Outros sintomas
  • Aftas orais recorrentes
  • Abortos espontâneos
  O que causa LUPUS?O sistema imune é desenhado para proteger-nos de bactérias, vírus, câncer e outros patógenos. Nas doenças autoimunes o sistema imune por engano identifica partes do nosso corpo como patógenos, e as ataca. Posteriormente outras células do sistema imune são recrutadas e outras estruturas são danificadas, como os vasos sanguíneos. Como qualquer órgão do corpo é irrigado por vasos sanguíneos, a inflamação pode ocorrer em praticamente todos os lugares. O que causa este “engano” inicial do sistema imune não é totalmente entendido. Atribui-se a uma combinação de tendências genéticas com fatores ambientais, como vírus, raios ultra-violetas (sol e lâmpadas de luz branca), exposição à sílica ou alergias a medicações. Estudos recentes apontam que pacientes com Lúpus podem apresentar uma capacidade deficiente de “limpeza” de células velhas e danificadas, que poderiam causar uma reação anormal do sistema imune. Quem vai desenvolver Lupus?Lúpus pode acontecer em qualquer idade, mas é mais comum em indivíduos entre 16 e 55 anos. É 10 vezes mais comum em mulheres, e também atinge mais certos grupos étnicos, como negros e asiáticos.  Se eu tenho Lúpus, qual a chance de meus filhos desenvolverem a doença?Filhos de pacientes lúpicos têm de 5 a 29 vezes mais chances de ter a doença do que a população em geral, mas, como Lúpus é uma doença rara, esta chance ainda é bastante pequena. Cerca de 10% dos pacientes têm parentes de 1º, 2º ou 3º graus afetados. Como LUPUS é diagnosticado?O diagnóstico é às vezes difícil e demorado. Casos suspeitos devem ser confirmados por uma série de exames.  O mais famoso deles é o FAN (fator anti-núcleo), que está presente em cerca de 99% dos casos de Lúpus, mas também em até 30% das pessoas normais. Alguns anticorpos são bastante específicos para Lúpus (anti-SM, anti-DNA dupla-fita, anti-P ribossomal) e, se presentes em concentrações significantes, lúpus é praticamente certo. Como isso não acontece muito freqüentemente (10 a 50% dos casos), o reumatologista tem que lidar com um quebra-cabeça de sintomas e exames para fechar o diagnóstico. Critérios diagnósticos internacionais para a classificação de lúpus servem para estudos clínicos e não devem ser usados para indivíduos em particular.   Como o LUPUS é tratado?O curso do Lúpus também é muito variável. A maioria evolui com períodos de piora e melhora, e uma parte pode entrar em remissão. Infelizmente não raramente o lúpus pode ser agressivo e até fatal, inclusive apesar do tratamento. Quais drogas usar e em que quantidade é uma decisão que deve ser tomada por um reumatologista experiente, baseado nos acometimentos e gravidade de cada paciente. A maioria das drogas leva a efeitos colaterais sérios e seu uso é produto de uma análise dos possíveis riscos versus benefícios. São as principais: cortisona (prednisona, prednisolona, dexametasona, metilpredinisolona, hidrocortisona, outras); imunossupressores (ciclofosfamida, metotrexate, azatioprina, micofenolato de mofetil, ciclosporina); antimaláricos (difosfato de cloroquina, hidroxicloroquina); anticoagulantes (varfarina, heparina), entre outras. Recentemente uma série de novas medicações, as chamadas “biológicas”, têm sido trazidas ao mercado, levando esperança àqueles com as formas mais agressivas da doença. Sua eficácia, no entanto, ainda está sendo estudada.  Os pacientes lúpicos têm, em função da doença e do tratamento, risco maior para doenças cardio-vasculares, como infarto e derrame. Devem, portanto, ser sempre assistidos quanto à redução de fatores de risco como colesterol, hipertensão, sedentarismo e tabagismo. Osteoporose também é freqüente nestes indivíduos e sua prevenção faz parte de uma abordagem completa.Vacinas como da gripe, pneumococcus, tétano, Haemophilus influenza e hepatite-B conferem menos resistência em lúpicos do que em pessoas em geral, mas devem ser usadas e não provocam reativação da doença. Vacinas com vírus vivos atenuados (p.e. sarampo, caxumba, rubéola, pólio, catapora, febre amarela) são perigosas e não devem ser usadas rotineiramente em indivíduos em uso de drogas imunossupressoras. Alguma dieta, vitamina ou suplemento alimentar deve ser tomado por lúpicos?Até o momento não há evidências científicas de que vitaminas ou dietas em específico modifiquem a evolução do lúpus. Quadros inflamatórios crônicos e importantes podem levar a consumpção e perda de peso. Nestes casos uma dieta hipercalórica pode ser útil. Corticóides podem levar a aumento do apetite, obesidade e piora do colesterol. Uma dieta com baixas calorias e teores de colesterol pode ser interessante para estes pacientes. Dois estudos suportam a idéia de que óleos de peixe com Omega-3 (ácidos eicosapentanóico e docosahexanóico) poderiam reduzir a atividade da doença e melhorar a função dos vasos, mas eles são preliminares e pequenos de mais para que conclusões definitivas possam ser tomadas. Não há evidências científicas que suportem o uso de fitoterápicos e alguns (p.e. echinacea) podem ser nocivos..Vivendo com LUPUS Mesmo com os avanços recentes em seu tratamento, o Lúpus é uma doença crônica, potencialmente grave, que interrompe a vida normal do indivíduo obrigando-o a uma rotina de freqüentes exames, visitas ao médico, hospitais, efeitos colaterais de medicações, sintomas e seqüelas da doença, estas às vezes permanentes. Isso é particularmente difícil de aceitar na juventude, faixa etária mais acometida pelo lúpus. A incerteza sobre seu curso, falhas no tratamento e os hormônios da inflamação colaboram para raiva, frustração, depressão, perda da esperança e da vontade de lutar. A melhor maneira de controlar o lúpus é:
  • Confiar e manter uma boa relação com o médico
  • Manter uma sólida relação com familiares e amigos
  • Tomar regular e eficientemente as medicações como prescritas
  • Visitar o médico e fazer exames regularmente, mesmo se não estiver se sentindo doente.
  • Aprender sobre a doença, como reconhecer seus sintomas e o que se pode fazer para evitar a reativação
  • Não ter uma postura passiva. Se envolver diretamente no processo de cura.
  • Um acompanhamento psicoterápico é bastante recomendado e ajuda na aceitação dos limites impostos pela doença, bem como na reorganização da vida com sua presença.
  • Manter-se ativo física-emocional e profissionalmente. Evitar, no entanto, excessos de exercícios. O melhor é alternar atividades de leves a moderadas com períodos de descanso / relaxamento.
  • Evitar exposição ao sol e a lâmpadas frias. Usar bloqueadores solares mesmo em ambientes internos.
  • Evitar o uso de estrógenos e planejar eventual gravidez junto com o reumatologista. Estudos recentes mostram que o estrógeno pode desencadear ativação da doença e aumentar a chance de tromboses. Muitas das medicações causam má formação fetal e a própria gravidez pode piorar o lúpus.
 Pontos a lembrar A maioria das pessoas com lúpus pode viver vida normal, mas a doença deve ser cuidadosamente monitorada e o tratamento ajustado como necessário para prevenir complicações sérias. Confiar no reumatologista e se envolver na busca da cura é fundamental na definição do curso da doença. Para mais informações:  Referências:
  • American College of Rheumatology, informações aos pacientes, http://www.rheumatology.org/public/factsheets/diseases_and_conditions/lupus.asp?aud=pat
  • MD consult, informações ao paciente
  • Up-To-Date 16.3, Outubro 2008
  • Kelley's Textbook of Rheumatology, 8th Ed.